sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

raptada pelo raio em temporada relâmpago!


FOTO : Lenise Pinheiro - Folha Imagem. Com Paulo Azevedo e Lúcia Romano.

FOLHA DE SÃO PAULO
São Paulo, domingo, 03 de maio de 2009

Cia. Livre reencontra os mitos indígenas Peça "Raptada pelo Raio" narra busca incansável de homem pela mulher amada

"Orfeu ameríndio" dirigido por Cibele Forjaz tem redes, público de olhos vendados e vídeos em tempo real; mote é dificuldade de aceitar a morte

LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL

Premiado painel dos ritos de morte do universo ameríndio, a peça "Vemvai - O Caminho dos Mortos" (2007) foi filha "de um susto, da perplexidade" de uma companhia diante da riqueza de um certo imaginário, segundo a diretora Cibele Forjaz.
O tal susto, ao invés de deter, estimulou a Livre a seguir adiante. Daí o parto de "Raptada pelo Raio", espetáculo em que o grupo presta nova visita aos mitos indígenas, desta vez concentrando-se em um deles, o de Kaná Kawã (do povo Marubo), sobre um homem que cruza o mundo à procura de sua amada, Maya.
Espécie de Orfeu autóctone, o personagem bate à porta de povos como o cegueira e o mentira para colher pistas do paradeiro da cara-metade. Antes, para transcender os limites do corpo, cumpre um ritual triplo: toma chá, fuma tabaco e come a língua de um pássaro.
O público embarca com ele de olhos vendados, acomodado nas redes abertas em pleno espaço cênico. A grande instalação que surge, com espectadores entregues às sugestões da audição, reféns do abstrato, remete às "Cosmococas" de Hélio Oiticica e Neville D'Almeida.
"Lidamos mesmo com a sinestesia, com uma estrutura um pouco "Alice no País das Maravilhas". E as referências a Oiticica e Lygia Clark são claras, naquilo que eles têm de devoração do universo ameríndio", diz Forjaz.
"Mas não queríamos que fosse só uma viagem lisérgica.
Buscamos uma travessia de linguagem", pondera ela, que leva à cena a dramaturgia de um estreante, o antropólogo Pedro Cesarino (em processo colaborativo com a companhia), consultor em "Vemvai".

Sociedade do espetáculo
O périplo levará o índio aos domínios do povo raio, nas franjas do céu. Como que para facilitar o acesso à terra estrangeira, ele tomará por um instante a forma delicada, discreta de um boneco de madeira -mais um achado do teatro lúdico da diretora.
No país raio, a profusão de néons, luzes estroboscópicas e vídeos (capturados em tempo real) sugere: Maya deve ter se enredado na teia da sociedade do espetáculo, com suas promessas plastificadas de felicidade e juventude eterna personificadas por um líder que encadeia slogans publicitários.
"O que esse homem diz é o que nos levou a começar a pesquisa: a relação difícil que a nossa sociedade tem com a morte, o fato de não a ritualizarmos, de a recusarmos e, com isso, negarmos vários índices de transformação, como a velhice, a doença e a dor. Tentamos fazer com que isso não seja uma caricatura, mas uma pergunta", explica Forjaz. "O mundo-imagem não só um índice negativo", frisa ela. "Não quisemos contrapor civilização e mito, homem branco e índio. São forças que só existem em contradição."
E que se encontram na inexorabilidade da morte. "A trajetória do personagem é de aprendizado, semelhante à de qualquer herói. Ele anda tudo aquilo como um luto, pois a morte é concreta, se impôs.
Não existe volta, só transformação", finaliza a diretora.


RAPTADA PELO RAIO Quando: sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; até 13/12
Onde: Casa Livre (r. Pirineus, 107, Barra Funda, tel. 3257-6652)
Quanto: público fixa valor do ingresso
Classificação: livre